- Não vem com essa.
- Por quê?
- Você sabe que não durmo duas noites seguidas com o mesmo cara.
- Você fica tão sexy tentando cobrir o corpo com o lençol branco.
- Para.
- Eu sei que você quer ficar.
- Você nem me conhece direito.
- E daí?
- E daí que você não sabe o que me dá vontade.
- Você que pensa. Você é previsível.
- IM-previsível?
- PRE-visível.
- Não é o que todos dizem.
- Eles não sabem de nada.
- Olha ali. Acho que você deve ficar.
- Olha ali o quê?
- As suas sapatilhas
- O que têm elas?
- Parece que elas se deram bem com meus sapatos.
- Ha, acho que não. Repara na da direita. Tá torta.
- É de amor.
- Amor? Pff. Elas estão é com medo.
- Medo? Elas se sentem intimidadas por eles serem 43?
- Não. É justamente o contrário. Elas gostavam mais dos coturnos do cara de sexta. Se sentiam mais protegidas. Seus sapatos são muito delicados.
- O cara de sexta usava coturnos?
- Sim. Era bem mais musculoso do que você. E nem por isso dormi com ele de novo no sábado.
- Eu quero mais é que caras assim se fodam.
- Invejoso.
- O que te trás aqui afinal, já que você gosta desses caras de outro tipo?
- Você não disse que eu sou previsível?
- Na maior parte das vezes é.
- Acho que você está se atrapalhando.
- Qual é o problema em você ser previsível?
- Não sou previsível. E você não tem esse direito.
- Que direito?
- Se nem os outros caras, se nem eu mesma consigo me entender, não é você que vai ter esse direito.
- Claro que você não se entende. Se esforça tanto pra parecer insensível que age feito uma.
- Isso foi muito gentil de sua parte.
- Por nada.
- Acho que é pra matar as saudades.
- Hã?
- Estou respondendo sua pergunta. Acho que o que me trás aqui é a saudade.
- Saudades de quê?
- Do tempo que eu curtia caras que nem você.
- Caras que nem eu?
- É. Do tipo que pedem pra ficar. E que usam sapatos delicados.
- Aí um deles quebrou seu coração, você se frustrou... Conta aí...
- Não. Aí eu amadureci.
- "E vi que nenhum homem presta".
- Mais ou menos isso.
- Hahaha. "Amadureci" foi ótima. Que belo jeito de esconder a desilusão.
- Ain.
- Desculpa. Acho que peguei meio pesado.
- Relaxa, não sou nenhuma mulherzinha.
- É, eu sei.
- Por que não paramos de falar sobre mim e não começamos a falar sobre você?
- Vá em frente.
- O que, afinal, te fez me trazer aqui?
- Como assim?
- Sei lá. Você não deveria preferir mulheres de outro tipo?
- De qual tipo?
- Do tipo que se apaixonam por você.
- Eu detesto o tipo de mulher que se apaixona por mim.
- Por quê?
- Muito bobinhas. Te olham como você fosse um príncipe encantado. Urgh.
- Engraçado isso. Você faz parecer que razão e emoção não são opostos.
- Não sei se são.
- Também detesto o tipo de caras que gosta de mim.
- Tipo noventa por cento deles?
- Ha, não é assim.
- Você sabe que consegue o cara que quiser.
- Menos bem aqueles que eu quero.
- Amores não correspondidos acontecem.
- É.
- Agora, se me dá licença, vou tirar as nossas coisas do chão. A diarista logo vai chegar e se atrapalhar com tudo isso.
- Tudo bem.
- Peraí, onde vai pôr minhas sapatilhas?
- Dentro do armário.
- Junto com os outros sapatos?
- É.
- Não. Deixa elas aí. Tô começando a confiar nesses seus sapatos delicados. Não quero elas no meio dos outros cafajestes.
- Ahá, eu sabia.
- Não sabia de nada. Agora volta pra cama, meu bem.